UMA LEITURA DO BBB

Ronaldo Magella 02/03/2009

Em 1848 Karl Marx lançou o seu Manifesto Comunista. A Marx é atribuída a famosa frase sobre a religião, onde o autor terá oportunidade de dizer que “a religião é o ópio para as massas”, pois, segundo o pensador alemão,  por causar grande alienação na sociedade. Marx não conheceu os sistemas de transmisão de imagens, concebidos na década de 20, do século XX, conhecidos hoje por televisão.

Mas, se as religiões causam alienação, conforme afirmou Marx, o que pensar da televisão? É o estado de coma do povo?

É incrível como cerca de 30 milhões de pessoas param todas as noites, em suas salas de estar, quartos, junto com os familiares para assistir um programa como o Big Brother Brasil. Quando o Brasil tem números ínfimos de leitura, tiragens de livros e leitores.

 O Plano Nacional do Livro e Leitura em seu site diz que o brasileiro ler em média 1,8 livros por ano, enquanto assiste cinco horas de TV diária, o que dá por ano, 1825 horas na frente de programas de alta qualidade e “poder instrutivo”. Para o PNLL 74% dos pais ou responsáveis por estudantes brasileiros nunca ou raramente lêem livro. Assim resta mesmo ver imagens.

Sobre o BBB, veja as críticas de especialistas, encontradas Wikipédia:

Em janeiro de 2008, a revista Ilustrada, suplemento do jornal Folha de São Paulo, inquiriu três especialistas em educação e psicologia acerca do conteúdo do programa. Estes foram unânimes em afirmar que não há qualquer conteúdo válido para crianças, existe exploração da sensualidade e que prejudicam "a formação da criança", como afirmou Carlos Ramiro de Castro. Para a professora de psicologia da educação Maria Silvia Pinto da Rocha o programa expõe as crianças à erotização precoce.

] O professor de psicologia Valdeci Gonçalves da Silva, entretanto, o programa apresenta alguns aspectos positivos, apesar de já em seu título demonstrar a desvalorização da língua portuguesa, de demonstrar que o confinamento produz situações alheias à realidade. Para ele, o programa serve como um "laboratório" de apreciação da conduta. Mas o autor ressalta que "num país tão carente de cultura o Big é um programa que, com tantos recursos investidos, não consegue passar algo mais instrutivo".

Crítica ética

Em 2002 o professor de ética jornalística da Faculdade Cásper Líbero, Eugênio Bucci, publicou contundente artigo em que equipara este reality shows ao crime de seqüestro, neste caso às avessas, uma versão circense do delito; para o educador, o programa é de mau gosto em todo o mundo, mas no Brasil chega a ser torpe. Compara os participantes a "bobos num confinamento prolongado", visando um sucesso à custa da perda da privacidade e não por um talento, pela qualidade do raciocínio ou por uma obra. Classifica-o como o mais deseducativo programa da televisão, porque passa valores como o de que a fama justifica qualquer humilhação, e a conivência dos adultos face às crianças dá a estas a impressão de que o "circo" da exposição é um meio de "ser alguém na vida". Para o professor de ética "Todos [os participantes] demonstram um pantagruélico apetite pela fama. Desejam mais evidência. Há outras versões a caminho, você pode apostar, sempre com a mesma lógica: pela fama, tudo é sacrificável."

Diante de tais comentários, não precisaria mais nada dizer. Na nossa pequena opinião, soa insignificante. Mas...

O programa nos passa a intolerância como forma de modus vivende, ou seja, aqueles que não nos são simpáticos ou que estão atrapalhando o nosso caminho no rumo à vitória devem deixar de participar da vida, do jogo, do nosso grupo, e assim, são mandados para o paredão, ou seja, ao fuzilamento.

É interessante perceber os campos semânticos que norteiam o programa: paredão (fuzilamento); herói (super poderes); confessionário (segredo, culpa, salvação); anjo (salvo); líder (capacidade); prova (resistência, capacidade); jogo (vencedor e vencidos); eliminado (morto, acabado). É claro que a nossa análise é superficial e feita de momento, precisaríamos de mais recursos teóricos para um aprofundamento. Tais palavras são todas positivas, exceto, o último estágio do participante, quando é eliminado. Anjo, líder, herói, jogo todas remetem a poder, superação, capacidade, quando nem todos ali demonstram tais qualidades, principalmente de heróis e líderes.

Porém, ao refletirmos sobre a escrita de tal texto, o nosso objetivo era discutir quais os valores que estão em jogo em um programa de tão grande audiência nos lares do Brasil. Conforme diz um dos analistas citados assim, o programa nos passa o discurso de que a vida é um jogo e que para sermos famosos e ricos temos que passar por tudo e tudo vale a pena.  

A vida é um jogo. É interessante essa perspectiva. Nos jogos sempre há vencedores e vencidos, não há fraternidade, apenas regras a serem seguidas. Jogar é apostar, confabular, traças estratégias, superar metas e limites para se atingir o fim desejado, pois o importante é vencer, não importa os meios. E sendo assim, onde ficam os nossos sentimentos de altruísmo, amizade, fraternidade, companheirismo, renúncia?

E tudo isso em busca de um milhão de reais. Vejam o discurso. Tudo por dinheiro. Ficar longe dos amigos, da família, perder a privacidade, se submeter a provas, participar de festas, odiar uns e emparedar outros, votar contra uns e salvar-se a si mesmo, em troca de um milhão de reais. Tudo por dinheiro. A vida é dinheiro. Viver é ter e nada mais.

Por que mais que alguém diga, olha é apenas um programa, nada mais, a mim fica a sensação de que aqueles ali confinados no programa representam uma sociedade. Se 30 milhões de pessoas diariamente se sentem atraídas por tais sensações é por que se sentem afinadas, representadas, gostam da disputa que alça uns e derrubam outros.

Conforme disse Jesus, onde está o vosso tesouro, aí estará o vosso coração.