Bom mesmo é caber em um colo. Desmoronar nos braços de alguém, sem nem ter de se preocupar em se agarrar ao pescoço.
Desmantelar-se. Inutilizar, um a um, cada músculo do corpo até quase perder a forma de gente. Até ganhar moldura de colo. Chegar tão perto a ponto de confundir qual dos dois corações é o seu. Não há melhor canção de ninar.
Se não aprendi a voar, o que me alenta é saber que um dia já fui do tamanho de um colo e vi o mundo centímetros acima sem ter asas. Pois é fato: não se pode ser plenamente com os pés no chão.
Por um colo, confesso, já até trapaceei. Lembro, algumas vezes, do pai cansado e arfante e eu fingindo meu sono profundo apenas para garantir aquele colo absoluto, desse sem nenhum enlace. A cabeça despencada, a boca aberta. Não há músculo que resista a um bom colo.
Além de corpo mole, birra é uma moeda forte nesses casos. Vale espernear até ganhar as alturas, só para ver um mundo mais confortável do alto de um colo.
E se há colo, é possível desistir de tudo a qualquer instante. Nem é preciso esperar para chegar em casa. Ali mesmo no supermercado, na rua, no elevador, é permitido não querer mais brincar de existir. Um colo aconchega qualquer derrota.
Hoeje em dia, chego a me esforçar para caber em um colo. Espremo, espremo. Não cola: no colo, não cabe nenhuma contenção. Agora, só há espaço pra a cabeça sobre as pernas do outro. O cafuné tenta consolar.
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Este texto é dedicado às pessoas que ainda cabem em colos: Feliz dia das Crianças.
Juliana Simonetti é jornalista (trabalha no Cruzeiro do Sul), mas prefere fantasiar nas horas vagas. Está em fase de produção de seu segundo livro (sobre o sertão de Guimarães Rosa) e há 20 anos não cabe mais em colos, mas sabe o poder dos ombros amigos.


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