De cabeça raspada

* Por Alberto Meneguzzi

 

Raspei a cabeça. Cortei o cabelo bem curtinho.

- “Máquina número cinco”, foi o meu pedido para a cabeleireira.  A moça ficou assustada. Coloquei a responsabilidade nas mãos dela.

- “Tem certeza que quer fazer este corte?”.

Nunca tive tanta certeza. Sempre quis cortar meu cabelo desta forma, bem curto, quase raspado. Autorizei. Ela cortou. Eu me diverti vendo a minha aparência mudar aos poucos. Saí com a cabeça raspada. Confesso que para um cara tão normal como eu nestas coisas, não foi uma decisão fácil. Eu nunca cortei o cabelo de forma diferente. Nunca! Sempre o mesmo corte e o mesmo estilo. Sou do tipo que quando adota um estilo, escolhe um cabeleireiro ou um restaurante, dificilmente muda. Sou assim, meio previsível e rotineiro nestas coisas. No que se refere a parte física não sou muito cuidadoso comigo mesmo. Quando eu era adolescente, eu era magérrimo. Pesava 64 anos. Tinha complexo de ser magro demais. Depois dos meus 25 anos, engordei de forma assustadora. Cheguei ao limite: 107 quilos. Procurei uma nutricionista e baixei para 86. Engordei de novo, voltei aos três dígitos e após a morte da minha mãe tomei a decisão de me tornar menos sedentário. Baixei de novo o meu peso e hoje estou na casa dos 90. o que ainda significa incômodo.

Voltando aos meus cabelos, nos últimos anos, eles branquearam de vez, mas não mudei o corte. Deixei-os sempre do mesmo jeito e brancos. Notei também algumas quedas, principalmente na parte da frente. Tenho medo de ficar careca. Talvez seja o meu destino num curto espaço de tempo. Mas por enquanto, resisto bravamente, numa luta incessante para que os cabelos permaneçam onde estão. Não me importo que fiquem mais brancos. Claro que meus amigos gozadores já estão tirando sarro da minha nova aparência. Danem-se eles. Fiz o que eu estava disposto a fazer. Fiquei feliz em ter tido coragem de ter raspado a cabeça. Vida nova, cabelo novo e se Deus quiser, peso novo. Quero emagrecer mais ainda. Quem sabe uns dez quilos. Serei, com isso, um Alberto mais feliz, com mais saúde e melhor disposição para as coisas. Tudo isso faz parte dos meus planos para 2009, ou melhor, para o meu ano-novo, que pelo menos para mim já iniciou, no dia do meu aniversário.

            Isso vale também para a minha vida pastoral. Na catequese, por exemplo, já tomei algumas decisões importantes. Se na vida normal sou meio previsível, nas minhas ações como catequista não tolero ficar agindo sempre da mesma forma, ou  fazendo de conta que estou contente e feliz com tudo o que acontece. Serei um catequista ainda mais atuante, pelo menos é que eu pretendo. A minha primeira decisão é continuar sendo catequista. Não sei ainda em qual paróquia. Em 2008 fiz tudo o que eu podia para tocar corações. Coloquei meus dons a serviço. Mudei até de paróquia. Deixar de dar catequese na paróquia onde nasci e cresci não foi uma decisão fácil. Mas foi o que eu fiz. Deixei a paróquia de Lourdes, onde foi toda a minha vida, e me integrei a paróquia de São Pelegrino, onde moro. Senti a diferença. Mas eu precisava mudar de ares, aprender coisas novas, ou, simplesmente, conhecer uma realidade diferente daquele que eu até então tinha vivido durante 22 anos. E não me arrependi. Foi um exercício de humildade. De coordenador que eu era, passei a ser comandado. Submeti-me a outras regras e a outras condutas. Fui conviver com outro padre. O estilo da nova paróquia de fazer catequese era completamente diferente do que até então eu tinha presenciado.  Mas, mesmo assim, não mudei o meu estilo e não perdi a minha paixão. Fiz do meu trabalho o melhor possível, dentro das condições que eu tinha. Fui além daquilo que me ofereciam. Minha paixão continuou latente, viva, e minha emoção aflorou diversas vezes. Não precisei, para isso, contestar ou brigar com ninguém. Apenas fui verdadeiro, autêntico e zeloso pelos meus princípios. Não deixei de falar aquilo que eu pensava, mesmo que alguns estranhassem a minha veemência.

            Em 2009, quero me empenhar ainda mais. A catequese precisa desta minha paixão e deste meu entusiasmo. Sou assim! Não importa em qual paróquia, mas estarei presente e trabalhando pela catequese. Meus catequizandos irão sentir o amor de Deus. Quero que se apaixonem pela causa, que sintam o toque de Deus e que decidam por um caminho diferente. Não posso ser conivente com este mundo “podre” que está aí. O meu silêncio, a minha omissão e meu conformismo, podem contribuir para que este mundo “podre” seja ainda mais “podre”. Não quero contribuir desta forma, mas sim, para que  jovens, crianças, seus pais, e todos aqueles com os quais eu trabalhar, sintam a alegria e o amor , os mesmo sentimentos que fazem parte da minha vida por ter escolhido e optado pelo caminho de Deus.

            Vou continuar sendo catequista, não apenas com a minha turma de crisma ou de qualquer outra etapa que eu vier e ser convidado a trabalhar, mas também, nas coisas que eu escrevo, nas palestras que eu proferir, nas formações que eu participar, na  vida profissional e pessoal. Quero ser catequista sempre, mas um catequista apaixonado cada vez mais pela sua missão. Este é o maior presente que Deus pode me dar e em 2009, e mesmo agora, nestes últimos dias do ano, eu não quero  decepcioná-lo.

            Por isso, assim como raspar a cabeça, emagrecer, trocar de emprego, mudar o visual, trocar de carro, fazer uma viagem, conhecer outros lugares,  comprar uma casa ou qualquer outra coisa material tornam-se situações importantes na vida da gente nesta época do ano, a decisão de continuar servindo também é.

            Quero servir para alguma coisa!

            Quero colocar meus dons à serviço!

            Quero ser útil!

            Quero continuar sendo um instrumento nas mãos de Deus!

            Tudo isso de cabeça raspada e mais magro!

            Que venha 2009! Eu sou catequista, graças a Deus!

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