O kerigma

 

Tive acesso a uma carta escrita por uma adolescente que freqüenta a crisma este ano. Eu participava de um encontro de formação de coordenadores diocesanos de catequese e ouvia atentamente uma palestra sobre o kerigma quando uma coordenadora de catequese, sentada ao meu lado, se manifestou. No intuito de contribuir com o conteúdo que estava sendo apresentado ela pediu permissão para ler um trecho de uma carta escrita por uma catequizanda da sua paróquia.

A menina, que havia participado de um retiro organizado para jovens da idade dela, é filha de pais separados, mora com a mãe, o pai reside em Santa Catarina e descobriu-se, depois de um tempo,  que ela até foi abusada sexualmente pelo pai de uma amiga.  O drama pessoal é forte.

Em função disso, esta adolescente mereceu da coordenadora uma atenção especial quando se inscreveu, já com atraso, na catequese de sua comunidade. O acompanhamento da menina, nos encontros, está sendo feito pela própria coordenadora.

Na carta escrita durante o retiro a menina  descreve sentimentos, de forma muito simples, de como se sentiu tocada e atraída por Jesus  a partir do momento que aceitou participar do retiro com outros colegas também crismandos.

Diz a carta:

 

Nesse retiro aconteceu algo que jamais tinha acontecido antes: quando acordei de manhã em minha casa senti vontade de volta pra cama e dormir, pois naquele momento não tinha vontade de ir para o encontro. Mas, mesmo assim arrumei minha mochila e fui.

         Ao chegar onde era para todos se encontrarem para ir ao retiro, encontrei varias pessoas que conhecia e também outras que não conhecia, todos conversando, rindo, felizes de estarem indo para o retiro. Ai eu pensei: se eles estão felizes porque eu também não estou? Então na hora que o ônibus começou a andar pensei comigo: vai ser legal para eu fazer algo diferente.

Ao chegar ao seminário encontrei vários amigos da escola então duas amigas de sala de aula me convidaram para dividir o quarto. Quando chegamos na sala de palestra depois de ter largado nossas coisas no quarto, comecei a ouvir as palestras e em cada uma que ouvi tirei algo que vou levar para o resto da minha vida. Eu ri, chorei, dancei, cantei.

Uma das coisas que mais me tocou foi quando os palestrantes falavam sobre nossos pais. Isso me fazia chorar a cada momento que eu ouvia a palavra mãe ou pai, porque sentia vontade de abraçar e beijar meu pai e minha mãe e dizer o quanto amo eles, mais como não podia  fechava os olhos e olhos e imaginava meu pai e minha mãe juntos me abraçando. Era tão bom.

Foi muito bom ir ao retiro, pois aprendi tantas coisas. Aprendi também  que o mais importante pra mim  é que Deus existe  e que nunca estarei sozinha, pois Ele me ama.Lá me senti segura, pois tudo que fazia estava relacionado com nosso Senhor Jesus Cristo. Tenho toda certeza que depois de tudo que aprendi sobre o que a gente é pro Senhor, serei outra pessoa.

Agradeço por tudo o que fiz e aprendi no retiro.

 

 A realidade atual nos confronta com este tipo de situação.

Por isso, não dá mais para ser catequista apenas de retórica, da oratória, que trabalha na  catequese e não procura conhecer de perto a realidade das crianças e jovens que estão em nossas mãos. Precisamos testemunhar a nossa adesão ao projeto de Deus. É isso que evangeliza. O desafio que se impõe é mudar a maneira  como tratamos as  crianças e jovens. Precisamos ser mais interessados por eles, por seus pais, por seus dramas, alegrias, tristezas e história.. Isso significa uma mudança total de postura do catequista, que precisa dar um testemunho autêntico de sua opção pelo projeto de Jesus.

Sem este testemunho, nada funciona.

Precisamos tocar estes jovens com o nosso testemunho.

Num artigo ainda não finalizado, mas publicado, de autoria do Pe. Dr. Luiz Alves deLima- sdb, ele descreve o significado da palavra catequese e no final deixa um questionamento que julgo interessante: “Na raiz etimológica do termo catequese está o conceito de fazer eco, fazer ressoar. Ou seja: para que haja catequese, é necessário supor um som (sonido), uma voz, um conteúdo prévio que torne possível o eco, a ressonância. Sem este som como será possível re-soar? Será possível ressoar o silêncio ou o nada?”

A pergunta é: será possível ressoar o silêncio ou o nada?

Mais adiante, o artigo do Padre Luiz  faz uma constatação que precisamos refletir: Ora, é aqui que, infelizmente, se estabelece um equívoco nos processos catequéticos de muitas igrejas. Com seu conteúdo doutrinal e sua metodologia magisterial a catequese pretende muitas vezes aprofundar alguma coisa que não existe. E porque isso? Porque partem da suposição de que este som, este fundamento inicial, já foi colocado e, com a catequese, pretende-se desenvolvê-lo. Herdando uma situação de cristandade nós supomos que nossos interlocutores (destinatários) comparecem à catequese já evangelizados, já tendo recebido o anúncio primeiro através da família ou do ambiente sócio-cultural pretensamente cristão em que vivem.”

 

A ressonância do nosso anúncio precisa ser desenvolvida. Estamos diante de um aspecto da catequese que com freqüência se esquece: a necessidade de um anúncio, de uma proclamação de Jesus Cristo, cuja ressonância no interior da pessoa que está numa caminhada de fé, será, depois, desenvolvida pela catequese. Desta maneira, hoje, dificilmente se poderá entender uma catequese que não seja precedida por uma ação de primeiro anúncio, de proclamação missionária, enfim, de uma proposta querigmática, diz o Padre Dr. Luiz Alvez de Lima.

 

No caso da menina que escreveu a carta depois de participar de um retiro para jovens de crisma, ela sentiu a presença de Jesus ao ouvir e presenciar o testemunho de muitos outros palestrantes do encontro. Foi acolhida e recebida com sorrisos antes de entrar no ônibus que a levaria para o local do encontro. Também foi acolhida, mesmo que com atraso, na comunidade. Alguém se interessou por ela. Mais tarde, ela foi tocada. Os testemunhos descritos nas palestras e em tudo que envolveu o encontro, tocaram esta menina. O desafio agora, da sua catequista e da sua comunidade, é desenvolver nela o crescimento deste primeiro anúncio, para que ela possa ser firme na sua opção e também testemunhar a sua adesão.

 

O “Kerigma” é uma palavra de origem grega. Buscando suas origens, chegaremos a seguinte explicação:  Keryx, significa “quem proclama”. Kerysso, “a ação de proclamar”. Kerigma, “o conteúdo da proclamação.” O primeiro anúncio, o conteúdo do evangelho, portanto, precisa ser kerigmático, onde a pessoa tenha um verdadeiro e duradouro contato com Jesus. O documento de aparecida diz “A iniciação cristã, que inclui o querigma, é a maneira prática de colocar alguém em contato com Jesus Cristo e introduzi-lo no discipulado” (288). E diz mais adiante: “Sentimos a urgência de desenvolver em nossas comunidades um processo de iniciação a vida cristã que comece pelo querigma e que, guiado pela Palavra de Deus, conduza a um encontro pessoal,  cada vez mais, com Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem, experimentado como plenitude da humanidade e que leve à conversão, ao seguimento em uma comunidade eclesial e aum amadurecimento de fá na prática dos sacramentos, do serviço e da missão” ( 289).

 

O documento questiona ainda a maneira como estamos educando na fé e como alimentamos a experiência cristã nos outros: “São muitos os cristãos que não participam na Eucaristia dominical nem recebem com regularidade os sacramentos nem se inserem ativamente na comunidade eclesial. Sem esquecer a importância da família na iniciação cristã, esse fenômeno nos desafia profundamente a imaginar e organizar novas formas de nos aproximar deles para ajudá-los a valorizar o sentido da vida sacramental, da participação comunitária e do compromisso cidadão.” ( 286)

 

O relato da menina catequizanda representa bem o encontro que ela teve com a figura de Jesus no retiro organizado pela sua paróquia.  Um retiro é uma iniciativa que precisa ser destacada. Existem outras. As comunidades precisam inovar, usarem a criatividade, buscarem coisas novas. É preciso fazer acontecer. Do contrário, somente dentro de uma sala, agindo como professores de escola, sem testemunho, não há anúncio algum.

O texto-base do Ano Catequético que acontece em 2009, diz que Evangelizar é antes de tudo, não ignorar e trata do cuidado que os evangelizadores precisam ter, sobretudo na catequese: “Muitas vezes, damos respostas sem ouvir as perguntas. Vamos ensinando o que achamos necessário sem ouvir o que está no coração do interlocutor. Evangelização e catequese são estradas de mão dupla, num diálogo permanente e indispensável, tanto para criar laços como para indicar os procedimentos pedagógicos mais adequados. Não dá para educar com profundidade pessoas que a gente não se interessa em conhecer” ( Texto-base do ano Catequético – nº 30)

 Não dá para educar com profundidade pessoas que a gente não se interessa em conhecer

 

 

 

 

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