Se eu voltasse a ser criança, queria que você fosse meu catequista”

* Por Alberto Meneguzzi

 

Quando minha mãe morreu, o meu mundo pareceu desabar. Foram 39 anos de contato direto, de ligações diárias, de cafés recheados com bons papos. É difícil perder uma mãe da maneira que eu perdi: em apenas um mês, com um diagnóstico foi fatal como o câncer (não gosto nem de citar o nome). Em trinta dias, somente trinta dias, levou, perdi minha mãe. Perder alguém seja quem for não é nada fácil. Mas perder uma mãe sabendo de forma antecipada que ela morreria em trinta dias, é terrível. Minha vida mudou completamente. Percebi o quanto eu precisava aproveitar cada instante, cada momento, cada abraço, cada beijo, cada palavra ao lado dela e curtir os últimos instantes. Eu parecia estar sonhando. Confesso, ainda acho que estou.

Logo após a sua morte, tive pesadelos horríveis. Não saía da minha memória a sua respiração ofegante, o seu último suspiro, as suas alucinações no leito de morte. Acordei muitas vezes gritando. Os pesadelos são menos freqüentes. Mas ainda sonho com ela, com situações do passado, com ela sorrindo. Incrível também é que cada vez que eu vou à missa, na hora da consagração, é a imagem da minha mãe sorrindo, feliz, cheia de vida que me vem à tona. Isso me conforta.

Não tem sido fácil superar a sua perda. Tentei ser forte, mas não sou tanto assim.

Mais do que isso, a dor de perder também, além de uma mãe, uma família inteira. Eu e meus irmãos nos afastamos por completo. Pouco nos vemos. Também eu, que sempre prezei a família, ando sem ação quanto a isso. Fico constrangido ao falar, em alguma palestra, sobre família. Que família? Que exemplo sou eu para a minha? Não sei nem o que falar. Rezo para que eu consiga reencontrar motivação para ser o elo entre os irmãos afastados, e alguns até brigados, por motivos banais. Mas não tenho conseguido força, por mais que eu reze.

            Por isso, a catequese continua sendo o meu oásis. A Igreja, minha fonte.

            Dia desses, fui convidado para dar um depoimento para um grupo de senhoras, zeladoras das capelinhas da paróquia onde moro. Fui indicado pelo Padre. Fiquei surpreso com o convite. Nunca havia falado para um público como este. Mas na hora que fui convidado, parece que ouvi minha mãe dizendo “ Aceita, vai lá, fala o que o teu coração mandar”. Aceitei. Levei o violão,  toquei umas músicas do Padre Zezinho e falei para um grupo de senhoras. Ao chegar, me olhavam desconfiadas. Eu estava nervoso. Mas eu parecia ver em cada uma dela, o rosto de minha mãe, sorrindo  orgulhosa por eu estar ali.

            Falei por longos 30 minutos. Falei de mim, da vida, de catequese, de família e da minha mãe. Falei de fé, da oração e dos pequenos gestos. Falei de tudo que normalmente falo para jovens, catequistas, pais de catequizandos e nos encontros de formação que sou convidado a participar.

Uma senhora, destas com uma carinha de vovó querida, levantou da cadeira e disse em voz alta, para que todos ouvissem: “Se eu voltasse a ser criança, eu queria que você fosse meu catequista”. E os risos tomaram conta do ambiente. Fiquei emocionado, meio envergonhado até, agradeci e saí com o coração saltando pela boca.

            Saí do encontro feliz, pois minha mãe estava ali, no meio de quase 70 senhoras.

            E tive mais uma vez a certeza de que Deus jamais nos abandona. Seus sinais são tão claros. Na minha tristeza de filho órfão, sinto o seu afago. Sinto suas palavras na boca de outras pessoas, seu consolo no abraço de um ou outro amigo, sua força na eucaristia. Tudo isso me faz persistir cada vez mais no seu projeto.

 

 

Não quero deixar que esta luz, que Ele me proporciona, fique escondida. “Ninguém acende uma lâmpada para cobri-la com uma vasilha ou deixá-la escondida debaixo de uma cama. Ele a coloca no candeeiro, a fim de que todos os que entram vejam a luz.”( Lc 8,16-18)

            Não deixemos escondida esta luz maravilhosa que Deus nos confia através da catequese.

 

  • Dê sua nota:  1 2 3 4 5
  • 790 visualizações
  • |
  • 0 favoritos
  • |
  • 0 comentários